Em 24 de agosto, depois de sentar-se por três meses sobre os processos que ligam Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro e ao escândalo do Banco Master, o ministro André Mendonça, do STF, iniciou uma ação capaz de favorecer ainda mais o candidato da extrema-direita e de Trump à presidência do Brasil. A uma equipe da Polícia Federal, convocada por ele para tratar de outros assuntos, Mendonça ordenou identificar os destinatários de algumas conversações específicas, entre as inúmeras extraídas dos telefones celulares de Vorcaro. Deu-lhe 72 horas para executar a tarefa.
Tanto a escolha das conversas quanto o prazo tinham sentido claro. Como revelara em março a jornalista Malu Gaspar, o provável interlocutor de Vorcaro nas gravações era o ministro Alexandre de Moraes, também do STF. A ordem era, portanto, ilegal, pois só é possível investigar um ministro do Supremo com autorização da presidência ou do plenário do tribunal. Mas Mendonça, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, sabia: um relatório da PF associando oficialmente Moraes a Vorcaro produziria um terremoto político a um mês das eleições. Eletrizaria a base dos Bolsonaro, que vê em Moraes seu algoz. Coesionaria em torno deles uma direita dividida entre várias candidaturas. E poderia paralisar uma esquerda que se vinculou demais à institucionalidade conservadora e tem mostrado até agora pouca disposição para politizar as eleições e mobilizar seu público.
Os detalhes do procedimento do ministro sugerem cálculo minucioso. Ele escondeu da Procuradoria-Geral da República, até terça-feira (1º), tanto a ordem que deu à PF quanto o relatório que recebeu às vésperas do fim de semana. Mas encontrou caminhos para que o relatório bombástico vazasse em O Estado de S. Paulo, nesse dia. Horas depois da explosão, retirou o sigilo sobre o documento, para que sua difusão se multiplicasse por toda a mídia e seu vazamento se tornasse irrelevante.
O impacto eleitoral da armação será aferido pelas pesquisas. Mas algumas das consequências políticas já são nítidas. O STF hesita sobre como enfrentar a crise entre dois de seus ministros. Promover um “curto-circuito institucional no Brasil” é, como notaram Luciana Bauer e Reynaldo Aragon, objetivo antigo do governo Trump (a quem incomodam, em particular, as críticas de Alexandre de Moraes às big techs). Mas os primeiros efeitos concretos atingiram, previsivelmente, os mais fracos. Na noite de 2/9, a liderança do governo no Senado desistiu de colocar em votação, em plenário, a proposta que proíbe a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada de trabalho. A aprovação, antes dada como certa devido ao apoio popular à iniciativa, tornou-se duvidosa, pois parte das bancadas conservadoras viu na crise um álibi para ausentar-se. Agora, virá o recesso pré-eleitoral. As chances de emplacar a mudança repousam numa incerta sessão extraordinária, que o presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, disse que cogita convocar. Porém, após o primeiro turno das eleições, quando terá mais condições de saber a quem oferecerá seus serviços…
As mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, segundo o relatório da PF, são ao mesmo tempo chocantes e triviais. Elas revelam a promiscuidade entre o grande poder econômico e as estruturas centrais do Estado brasileiro; a docilidade de quem atua nestas esferas, comprada pelas regalias que o capital oferece; o mundo de fantasia, completamente alienado das condições de vida da maioria, em que mergulham os agraciados. O ministro teria revisado e aprovado, ele próprio, o acordo de “prestação de serviços” do Banco Master com sua esposa, Viviane Barci de Moraes. Ela receberia R$ 131 milhões para defender a instituição numa corte em que seu marido tem papel destacado. Antes da assinatura do contrato, Vorcaro agraciou Moraes com uma “experiência ultravip” no Hotel Botanique, em Campos do Jordão. Presenteou os dois filhos do casal com cartões de crédito com limite de R$ 300 mil, cada um. Transferiu a Viviane, por meio de outro contrato, cotas de propriedade de um jatinho (“estamos gostando muito do privilégio”, teria dito ela).
Em contrapartida, Vorcaro cobrava de Moraes favores igualmente luxuosos. Pede informações antecipadas sobre providências em estudo na PF, que poderiam afetá-lo (“seria busca ou quebra de sigilo?”). Solicita orientação sobre como proceder diante das medidas judiciais contra si (“não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”). Sugere que os atos do ministro lhe conferem, e a suas empresas, enorme benefício (“Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com a sua família”). Ao final da relação, em novembro de 2025, pede a Moraes que intervenha junto à Procuradoria-Geral da República e à PF para interromper as investigações (algo que, como se sabe, não obteve do ministro). Como fecho, pergunta se deve “estar fora [do país] segunda”.
Seria a relação Vorcaro-Moraes atípica, distante dos padrões vigentes nas estruturas de poder do Brasil? Só os mais ingênuos acreditariam que sim.
Comece pelo bolsonarismo, que procura tirar proveito da crise deflagrada nesta terça-feira. Segundo o relatório da PF, a própria aproximação entre o dono do Banco Master e o ministro do STF, em dezembro de 2023, foi feita por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro. Examine, se preferir, as notórias relações entre Vorcaro e os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro, hoje engavetadas pelo ministro André Mendonça e curiosamente esquecidas por quase toda a mídia. Apesar das novas revelações da revista Piauí e de Vorcaro ter se comunicado, na véspera de sua prisão, tanto com Moraes quanto com Flávio, de quem ouviu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”…
Ou, então, volte-se para este próprio magistrado, “terrivelmente evangélico”, e suas tramas, que agora começam a aparecer melhor. Ele próprio, que denunciou as promiscuidades entre Vorcaro e Moraes, encontrou-se sigilosamente com o banqueiro em São Paulo, em 2025. Disse terem tratado de um assunto envolvendo precatórios. Reveladas pelo repórter Paulo Motoryn, porém, as conversas que antecederam o encontro sugerem outro enredo. Quem consegue o encontro é o advogado baiano Ciro Rocha, que se serve, para chegar mais próximo ao ministro, do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), integrante da Frente Parlamentar Evangélica ao lado de Mendonça. Quando agenda a reunião, Ciro relata a Vorcaro: “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia, que o Cezinha já tinha falado com ele”…
Como diversos de seus colegas no STF, Mendonça criou, em novembro de 2023, um instituto, o Iter (sugestivamente, “caminho”, em latim) para estabelecer relações com o mundo mercantil, sem expor a condição de poder do proprietário. Segundo matéria do UOL, a instituição firmou, já nos dois primeiros anos de existência, contratos que lhe renderam R$ 8,2 milhões em recursos públicos. O jornalista Luís Nassif notou que talvez sejam uma gota d’água em oceano, diante das notas fiscais emitidas pelo Iter para contratantes privados — condição, por exemplo, do Banco Master. Provavelmente por temer as repercussões destes compromissos, Mendonça anunciou, em 3/9, que havia decidido transferir suas quotas de propriedade no instituto… para sua esposa. Além de repetir o mesmo padrão de sociedade conjugal ensaiado por Alexandre de Moraes, o arranjo em nada inibe o possível tráfico de influência.
Em reportagem publicada em sua última edição, a Piauí aponta os saracoteios de Fábio Faria (o bolsonarista que apresentou Vorcaro a Alexandre de Moraes) nos ambientes em que as elites econômicas e o poder político brasileiro se encontram. A matéria vai muito além das ações dos personagens. Mostra que o lobby de varejo, realizado nos gabinetes dos três poderes em Brasília, prossegue, é claro. Nikolas Ferreira trata Vorcaro como “lindão” e o convida a resolver “uma questão minerária”.
Mas o tráfico de influência decisivo, no atacado, é agenciado em reuniões no exterior — Miami, Lisboa, Paris —, organizadas por entidades como o Instituto Lide ou o Esfera. Nesta lógica, as mulheres são, evidentemente, objetos de troca. “Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir”, diz um promoter, referindo-se a Alcolumbre. Vorcaro, em especial, gostava de gabar-se do tráfico de mulheres. Questionado por Martha Graeff, sua então companheira, sobre a longa relação de acompanhantes presente no endereçário de seu celular, ele tenta tranquilizá-la: “Mas eu não fiquei c essas mulheres. (…) Fazia parte do meu business. Nunca te escondi o que fiz e pq fiz. (…) Fiz festa com 300 desse tipo”.
Desde quinta-feira (3), O Globo, a Folha e o Estado pedem, com insistência, que Alexandre de Moraes renuncie à sua cadeira no STF. Mas ver no ministro a exceção a ser extirpada, para preservar um mundo político e jurídico supostamente probo e casto, é tão tolo como pensar que basta acabar com a primeira boca de fumo (ou decepar o primeiro pé de maconha…) para acabar com o crime organizado no Brasil. A hipocrisia, nesse caso, já não é o tributo que o vício paga à virtude. É o bode expiatório que os corruptos sacrificam para que seus crimes sigam despercebidos e impunes.
“Ou restaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos”, escreveu o escritor Sérgio Porto nos anos 1960. Se a promiscuidade entre o poder econômico e as estruturas do Estado é tão generalizada, por que a crítica a ela concentra-se tão fortemente sobre Lula?
Ao analisar a última pesquisa da Quaest, o sociólogo Felipe Nunes lançou duas pistas fundamentais sobre o tema. Ambas relacionam-se à impotência da esquerda no poder — o lulismo, o PT e seus aliados — para enfrentar as estruturas que produzem a desigualdade, a devastação e o atraso do Brasil.
Nunes destaca, em primeiro lugar, a fraqueza de Lula entre os mais jovens — a população que tem de 16 a 30 anos. Ao contrário do que ocorria nas primeiras campanhas do então operário, o hoje presidente tem apenas 30% de votos nesta faixa, enquanto 53% desaprovam seu governo.
Há uma explicação clara para isso. Em sua fase tardia, o capitalismo espalha desigualdade, devastação e depressão. Os mais jovens revoltam-se. A um governo de esquerda caberia ecoar e ampliar seu protesto. Mas esta atitude está ausente do repertório brasileiro. Os partidos que foram antissistêmicos no passado acomodaram-se às instituições. O lulismo cultivou uma governança retraída, que descrê da mobilização popular e aposta suas maiores fichas em acordos no interior do sistema. O vazio atual da campanha contra a jornada 6×1 é, como se verá, um grande sintoma.
A ausência abriu espaço para um embuste. A extrema-direita — esta que trata um banqueiro de “lindão” — apresenta-se como anti-establishment. Quem tem menos de 40 anos viveu quase sempre, desde os 18, sob governos de esquerda. E enxergou invariavelmente, neste período, a regressão do país e os arranjos entre as elites econômicas e o poder político.
Além de abandonarem para a extrema-direita a aura de antissistema, os partidos associados ao lulismo, reporta Felipe Nunes, foram incapazes de oferecer uma perspectiva de vida melhor às maiorias. Em consequência, “Lula tem nesse momento 45% de aprovação, contra 48% que desaprovam o governo. É um patamar abaixo do que ele precisa para se reeleger”.
Ao longo de quase quatro anos, Lula III rendeu-se ao “ajuste fiscal”. Num país com desigualdade abissal, regressão produtiva e imensas carências sociais, o governo elegeu como agenda maior uma proposta que atende às elites: “reduzir a dívida do Estado”. Jamais se preocupou, sequer, em fazer pedagogia política para mostrar que os déficits não são causados pelos serviços públicos, mas decorrem do pagamento de juros. Agora, uma longa série de fatos corriqueiros e estatísticas demonstra: quase 30% da renda dos 70% mais pobres é abocanhada pelas despesas financeiras; sem compreender a causa, a população volta seu ressentimento contra quem parece estar no exercício do poder.
“É comum ver governos melhorando avaliação durante a campanha. Com o governo Lula, isso não está acontecendo”, surpreende-se Felipe Nunes. E detalha: “Uma das explicações pode ser a frustração com a economia. (…) Apenas 10% dos brasileiros percebem hoje um aumento de renda maior do que seu custo de vida. O resto, ou teve aumento de renda, mas não teve melhora no patamar de vida; ou viu sua renda estável ou menor. Nem o Desenrola e a isenção do imposto de renda mudaram essa percepção negativa”.
Visto por Lula como seu grande trunfo junto à elite econômica e sua arma para conquistar a “estabilidade”, o “arcabouço fiscal” parece agora prestes a devastar seu apoio popular e ameaçar suas chances de um quarto mandato.
Falta agora um mês exato para o primeiro turno das eleições e sete semanas para seu desfecho. A campanha eleitoral, extraordinariamente despolitizada em suas primeiras semanas, tende a tomar tento. A extrema-direita, vitaminada pela ação de Mendonça, alardeia que voltará às ruas em 7 de setembro. É possível enfrentar sua ascensão e os riscos de ver o Brasil regredido a colônia dos EUA, sob os Bolsonaro?
A esquerda está em claro contrapé. Não é possível reverter, em menos de dois meses, vinte anos de concessões ao status quo. Mas o risco de derrota pode ser capaz de promover um primeiro despertar. A luta pelo fim da escala 6×1 pode ser o mote.
Lula e seus aliados têm legitimidade neste tema, que reúne o apoio de cerca de 70% dos brasileiros. Trabalhar menos é reivindicação de quase todos, há muito, mas foi transformada em pauta política pelo balconista Rick Azevedo e difundida nacionalmente pela deputada Erika Hilton. O presidente a abraçou. A extrema-direita a rejeita.
Sete semanas são suficientes para mobilizar o país em torno deste tema. Lula pretendeu aprovar a redução da jornada sem mobilização, como uma espécie de presente outorgado às maiorias, que retribuiriam com seu voto. A jogada dependia do apoio dos presidentes do Senado e da Câmara e fracassou, devido ao seu elitismo e à trama de Mendonça. O Centrão, com o qual o Palácio do Planalto contava, refluiu. O cenário atual é de pressão da extrema-direita. O governo está sem iniciativas e sem empuxe para sustentar a disputa eleitoral até o fim.
Se o desejar, terá, na defesa de um direito social emblemático, a alavanca para livrar-se do atoleiro. Precisará sair do comodismo, apelar à força das maiorias e tensionar a institucionalidade conservadora — o que rejeitou por vinte anos. Há um calendário viável: exigir que o Senado vote a emenda constitucional que reduz a jornada até 23 de outubro, antevéspera do segundo turno. Se o governo fizer o giro, os movimentos sociais o apoiarão e têm repertório para agir. Organização nos locais de trabalho, abaixo-assinados, comitês, quatro grandes manifestações de rua, em todo o país — uma a cada dois sábados, entre 12/9 e o segundo turno.
Nestas condições, o fim da 6×1 não será uma dádiva de Lula & Alcolumbre, mas o produto de uma luta. É possível, ainda. O presidente estará preparado para aceitar esta virada?
Notícia original publicada em: Brasil 247



