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Australianas avançam em terras raras com quase R$ 4 bilhões em Minas

247 – Empresas australianas avançam em terras raras com quase R$ 4 bilhões em Minas Gerais, concentrando projetos de mineração, processamento, pesquisa e infraestrutura em Poços de Caldas, Caldas e Araxá. A movimentação coloca o estado no centro da corrida internacional por minerais críticos, insumos considerados estratégicos para setores como energia, eletrônicos, mobilidade elétrica e defesa.

Segundo reportagem do Metrópoles publicada neste domingo (30), os principais investimentos, captações e aquisições já anunciados somam aproximadamente R$ 3,96 bilhões. O montante representa os compromissos divulgados até agora e não corresponde, necessariamente, ao investimento total que poderá ser realizado durante toda a vida útil dos projetos.

Em Poços de Caldas, um dos empreendimentos de maior porte é o Projeto Colossus, controlado pela australiana Viridis Mining and Minerals. O investimento previsto chega a R$ 1,35 bilhão e está associado ao desenvolvimento de uma cadeia de produção de terras raras na região.

A cidade também deverá receber o Centro de Refino, Reciclagem e Inovação de Terras Raras da Viridion, joint venture formada pela Viridis e pela Ionic Rare Earths. O projeto envolve R$ 51 milhões e amplia a perspectiva de que parte do processamento dos minerais seja realizada no próprio estado, acrescentando etapas industriais à exploração mineral.

Outra empresa australiana, a Power Minerals, entrou no mercado regional por meio da aquisição do projeto Morro do Ferro, operação que pode alcançar aproximadamente R$ 83 milhões.

Na vizinha Caldas, a Meteoric Resources desenvolve o Projeto Caldeira, atualmente estimado em R$ 2,2 bilhões. O valor supera os R$ 1,18 bilhão divulgados na etapa inicial do empreendimento. A companhia já implantou uma planta-piloto na região e avançou nos procedimentos relacionados ao licenciamento ambiental.

Em Araxá, a St George Mining conduz um projeto voltado à exploração de nióbio e terras raras. A companhia captou R$ 254 milhões para acelerar o empreendimento e adquiriu, em 2026, dois terrenos no município por cerca de R$ 20 milhões, destinados a estruturas industriais e medidas de compensação ambiental.

O Projeto Araxá foi adquirido integralmente pela St George em fevereiro de 2025 e está localizado nas proximidades das operações de nióbio da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM). O empreendimento também já estabeleceu acordos com instituições vinculadas aos Estados Unidos e à União Europeia.

O interesse de companhias australianas em Minas Gerais acompanha a disputa internacional por fontes alternativas de minerais críticos. Durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração, a Exposibram 2026, realizada em Belo Horizonte, a embaixadora da Austrália no Brasil, Sophie Davies, afirmou ao Metrópoles que aproximadamente 40 empresas de seu país já atuam ou analisam oportunidades no setor brasileiro de minerais críticos.

“Acho que a Austrália e o Brasil têm papéis muito importantes no ecossistema mundial da produção desse produto”, afirmou a diplomata.

Brasil e Austrália completaram 80 anos de relações diplomáticas, e o setor mineral aparece como uma das áreas de maior potencial para aprofundamento das relações econômicas. Na avaliação da embaixadora, os dois países podem ganhar relevância na reorganização das cadeias globais de fornecimento.

Sophie Davies também destacou que a expansão das companhias australianas no exterior deve preservar critérios ambientais, sociais e de governança adotados no país de origem.

“Essas empresas australianas sempre vêm com padrões de alto nível de meio ambiente, de social e de governança.”

A expansão dos projetos ocorre em um momento no qual Minas Gerais busca ampliar sua participação nas etapas industriais ligadas aos minerais críticos, evitando que a atividade econômica fique restrita à extração e à exportação da matéria-prima.

As terras raras integram um conjunto de minerais fundamentais para a produção de equipamentos de alta tecnologia. Elas são utilizadas, entre outras aplicações, em veículos elétricos, turbinas eólicas, produtos eletrônicos e sistemas militares. A concentração de grande parte do processamento mundial na China tornou a segurança do fornecimento desses materiais uma questão econômica e geopolítica.

Nesse cenário, o interesse internacional pelas reservas de Minas Gerais envolve não apenas a disponibilidade dos minerais no subsolo, mas também a capacidade de desenvolver tecnologias de separação, processamento, refino e aplicação industrial.

A secretária de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Mila Corrêa, afirmou que o estado começa a atravessar uma nova etapa de sua história mineral.

“A gente sai do ciclo do ouro, sai do ciclo do ferro, minério de ferro, e entra agora nesse novo ciclo que vai envolver os minerais críticos, elementos das terras raras.”

Para a secretária, a existência das reservas não garante, sozinha, os ganhos econômicos esperados. Minas Gerais e o Brasil precisarão ampliar investimentos em tecnologia e conhecimento para agregar valor à produção.

“Esse é o desafio do Brasil e esse é o desafio também de Minas Gerais: investir em inovação.”

A rápida expansão dos empreendimentos, entretanto, também enfrenta questionamentos de moradores, ambientalistas e entidades da sociedade civil em Poços de Caldas e Caldas. As principais preocupações estão relacionadas à proximidade das áreas previstas para mineração com bairros residenciais, ao abastecimento de água e aos possíveis efeitos acumulados de projetos instalados na mesma região.

O físico Daniel Tygel, presidente da Aliança em Prol da APA Santuário Ecológico da Pedra Branca e morador de Caldas, afirma acompanhar a implantação dos empreendimentos há aproximadamente três anos. Segundo ele, determinadas áreas projetadas para exploração mineral poderão ficar próximas de residências, escolas e unidades de saúde na Zona Sul de Poços de Caldas.

“Há previsão de mineração a cerca de 300 metros de residências”, reclama ele.

Entidades ambientalistas defendem que os projetos da Viridis e da Meteoric sejam avaliados de forma conjunta. De acordo com Tygel, os dois empreendimentos ficam separados por cerca de sete quilômetros e têm características que justificariam, na avaliação das organizações, uma análise integrada dos efeitos sobre o território.

“São projetos siameses e defasados”, afirmou.

Outro ponto levantado pelas entidades é a proximidade dos empreendimentos com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, pertencente às Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Os questionamentos incluem possíveis alterações hidrogeológicas, presença de metais pesados, geração de resíduos e eventual interação dos projetos privados com o passivo ambiental existente na área.

Organizações da sociedade civil reuniram um dossiê com mais de 1,2 mil páginas sobre os empreendimentos e vêm cobrando estudos mais aprofundados das autoridades. O movimento também alcançou moradores dos municípios de Caldas, Andradas e Águas da Prata.

Segundo Tygel, uma análise do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) levantou questões relacionadas às características hidrogeológicas da região e à avaliação conjunta dos impactos dos projetos. A relação entre os novos empreendimentos e o passivo ambiental da área da INB também aparece entre os pontos de atenção.

“O debate não significa necessariamente impedir a mineração, mas buscar alterações nos projetos e mecanismos capazes de reduzir os riscos ambientais e garantir maior participação da população nas decisões”, explicou.

A Prefeitura de Poços de Caldas também encaminhou ofícios a órgãos estaduais solicitando medidas para aumentar a distância entre futuras áreas de lavra e zonas habitadas, além de garantias para a preservação da qualidade da água e contrapartidas econômicas para o município.

Com quase R$ 4 bilhões já associados aos principais projetos e operações anunciados, Minas Gerais passa a ocupar posição relevante na disputa internacional pelas terras raras. O resultado econômico desse novo ciclo dependerá, porém, não apenas da exploração das reservas, mas da capacidade de instalar no estado atividades industriais, tecnológicas e de processamento capazes de manter uma parcela maior do valor gerado pela cadeia mineral dentro do país.

Por: https://www.brasil247.com/autor/lais-gouveia/


Notícia original publicada em: Brasil 247

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