Quantos pobres precisam existir para que um rico exista?
Em época de eleições a discussão em torno da justiça social torna-se acirrada. É uma disputa para parecer mais justo, mais engajado na defesa dos direitos do trabalhador, mais empático com as dificuldades diárias de todas as pessoas.
O debate político é necessário, contudo, não é novidade que as disputas ideológicas e religiosas, contaminam negativamente o processo eleitoral, pois, o foco deixa de ser o fato de que existe pobreza que precisa ser combatida, para o simples confronto de certezas.
O combate à pobreza é relativizado quando por exemplo, o discurso religioso, prega que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus, ou quando um ministro da economia em uma reunião oficial, afirma categoricamente, “deixa eles se f…, do jeito que quiserem”. Essa última expressão, não importa o contexto, caracteriza uma tendência a indiferença diante do sofrimento alheio, que hoje é disseminada em todas as esferas de nossa sociedade.
Não há argumento ético possível, que justifique a existência de pessoas sobrevivendo da ‘caridade” alheia. Não há argumento que justifique a concentração de renda. Quando a discussão enviesa para as recompensas que se pode auferir após a morte, a balança da justiça pende para o lado dos ricos.
A Imposição de crença religiosa não é plataforma política, é projeto de poder e de submissão incondicional. O debate político que se concentra na demonização do adversário, tem como principal objetivo a eliminação do contraditório, mas também, almeja a validação do próprio discurso de subjeção que mantém seus privilégios.
Os diversos temas colocados no debate político de 2026, estão envolvidos por uma violenta disputa de certezas. Privatizações, programas de distribuição de renda para os pobres, o evangelismo como plataforma política, a defesa do estado laico, a inflação e o custo de vida, as bases da educação no país e sua grade curricular mínima, enfim…, pode escolher o tema, a tendência é que os debatedores utilizem de todos os meios para impor o seu ponto de vista em detrimento do bem comum e da verdade dos fatos. Desde testemunhos de pessoas ungidas pelo espírito santo para salvar o país da ameaça vermelha, até mesmo a luta contra o fanatismo religioso. De um lado a outro, e por todo o espectro político, as propostas práticas para combate à pobreza desempenham um papel secundário, escondido sob as camadas de intransigência e intolerância. O objetivo principal é sempre deter o atraso que o adversário representa.
Para nós eleitores, a melhor forma de compor esse cenário caótico é deixar de lado as emoções, e as convicções, sejam políticas ou religiosas, e olhar para o lado de fora da janela do carro. Existe um mundo muito maior do que aquele que montamos em nossa mente a partir de nossos próprios sentidos e pré-conceitos.
Evangélicos são parte importante de nossa sociedade, da mesma forma que os ateus, os católicos, os agnósticos, candomblecistas, umbandistas, espíritas, islamistas, os judeus, etc.
A convivência social harmônica exige negociação de limites e o reconhecimento do direito a existência de todos eles.
O melhor candidato não é aquele que pergunta quantos pobres são necessários para se criar um rico, nem é aquele que impõe a sua verdade religiosa como a única possível em nosso país. O melhor candidato é aquele que pergunta quantos pobres ainda existem, e faz, em sua esfera de influência, e nos limites da lei, o que for necessário para que eles deixem de ser pobres.
Ao votar, não é a cor partidária, nem a visão religiosa, que devem prevalecer como critérios de seleção. Essa máxima valia nas eleições anteriores e permanece essencial em 2026. A defesa intransigente do bem comum, do direito à cidadania, é o que se espera de deputados, governadores e do Presidente da República.
Flavio Lima



